
Sucesso é bom, desde que os outros tenham menos que você. É o que diz estudo britânico.
Estudo conjunto da University of Warwick e da Cardiff University mostra que ficar rico não deixa ninguém mais feliz. Para os pesquisadores, o que realmente traz alegria é saber que seus pares, colegas e vizinhos, ganham menos que você.
Acompanhando lares britânicos, os pesquisadores concluíram que o simples aumento de renda – como ganhar um salário melhor ou receber uma bolada inesperada – não necessariamente tornavam o sortudo mais contente. A não ser que ele soubesse que os vizinhos e colegas continuavam abaixo dele no nível de renda.
O estudo ainda não foi publicado em revista cientifica, mas traz a tona a comprovação de um dos pecados capitais da igreja católica, a inveja. Também conhecida pela psicanálise como simples instinto que diz respeito às finanças, é vista fartamente nas sociedades ocidentais onde o status é sinônimo de aceitação.
Patologia
Uma das maiores estudiosas em inveja, a psicanalista Melaine Klein (1882-1960), dizia "o sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfruta algo desejável desperta o desejo de tirar esse algo ou de estraga – lo." Isso pode se tornar uma patologia em casos específicos, mas no dia a dia faz parte das reações de todos nós.
"Na medida em que a pessoa se sente insatisfeita com o que tem, seja milionário ou um trabalhador pobre, passa a ver o que os outros tem. Minha experiência com pratica clinica mostra o que é comum", afirma o professor do Mackenzie e doutor em psicologia clinica pela PUC-SP, Cláudio Bastidas. A experiência dele em 36 anos de consultório resultou no lançamento do livro "A Psicologia e o Seu Dinheiro", da Editora Novatec.
A relação do ser humano com o dinheiro é bastante complexa e, entre queixas mais comuns, diz Bastidas, estão culpa, dependência, endividamento freqüente e inveja. "Há quem se considere feliz mesmo morando em um barraco pobre, mas há casos em que a inveja precisa ser tratada."
Felicidade e riqueza dependem de cada um projetou para si mesmo. O doutor em finanças com pos – doutorado em psicologia cognitiva na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Jurandir Sell Macedo, faz um exercício com seus alunos perguntando o que eles desejam 20 anos adiante.
"Alguns querem apenas um bom carro e um apartamento, outros querem helicópteros. O engraçado é que, com o tempo, os desejos vão mudando e ficando maiores. Vai depender de cada individuo avaliar se é feliz com aquilo que tem ou não", diz. O professor recomenda que os alunos anotem os desejos para reverem 20 anos depois.
O estudo de Warwick e da Cardiff University é condizendo com outros que Macedo conhece sobre finanças e felicidade." A estratégia de comparação é mais eficaz para o cérebro que outros princípios. Por isso existe o dito popular de que é melhor ser o mais rico de um bairro pobre, que o mais pobre de um bairro rico", diz.
O doutor em finanças ainda afirma que não existe comparação vertical para os sentimentos de felicidade e inveja.
"Não adianta se comparar com o avô e saber que tem uma vida melhor; as pessoas querem saber como estão em relação aos irmãos e os vizinhos."
Status
Na vida econômica ocidental, o status tem tudo a ver com dinheiro, assim como no passado teve relação com a força masculina. Esse conceito esta ligado ao que ficou conhecido por engajamento pela teoria do psicólogo norte – americano Martin Seligman. O estudioso concluiu que felicidade é na verdade a soma de três coisas diferentes: prazer, engajamento e significado.
O engajamento é a profundidade de envolvimento entre a pessoa e sua vida. "É ligado ao fato de a pessoa gostar do que faz, do trabalho, de achar importante o que realiza e é ligado ao amor social, isto é, a aceitação do outro e de como ele é na sociedade. Ter dinheiro é ser aceito. Se não tem o que considera adequado, fica com inveja de quem tem", diz Macedo. Prazer é ligado ao sistema límbico, aquela sensação de alegria ao fazermos o que gostamos, como dançar. Significado é a sensação de que nossa vida integra algo maior.
(Fernanda Pressinott – Diário do Comercio)